Acidentes domésticos: alerta sobre cuidados

Por Serg Smigg

Hong Kong — O caso de uma idosa resgatada em estado crítico após permanecer dias ao lado do corpo de sua cuidadora falecida reacendeu o debate internacional sobre os riscos enfrentados por idosos que vivem sozinhos ou em condições de vulnerabilidade doméstica. O episódio, ocorrido em Hong Kong e reportado pela jornalista Fiona Sun, do South China Morning Post, expôs o fenômeno dos chamados “idosos invisíveis” — pessoas que, por falta de rede de apoio, acabam isoladas em seus lares, muitas vezes sem acesso a cuidados básicos ou socorro emergencial.

A mulher, cujo nome não foi divulgado, foi encontrada em estado de desnutrição e desidratação severas após vizinhos alertarem as autoridades sobre o odor vindo do apartamento. A cuidadora, que também era idosa, havia falecido dias antes, deixando a paciente sem condições físicas de buscar ajuda. Em outro caso citado na mesma reportagem, o esqueleto de um idoso foi descoberto meses após sua morte, sem que ninguém tivesse notado sua ausência.

Esses episódios não são isolados. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), quedas e acidentes domésticos estão entre as principais causas de hospitalização e morte de idosos em todo o mundo. No Brasil, o Ministério da Saúde estima que mais de 60 idosos por dia são atendidos em unidades hospitalares por acidentes ocorridos dentro de casa — a maioria deles quando estão desacompanhados.

Especialistas alertam para riscos e soluções

Para a geriatra Dra. Ana Paula Figueiredo, professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), o envelhecimento populacional exige revisão urgente das políticas públicas voltadas à segurança domiciliar. “O ambiente doméstico, que deveria ser um espaço de proteção, pode se tornar um campo minado para o idoso. Tapetes soltos, escadas sem corrimão, iluminação precária e ausência de dispositivos de apoio são fatores que contribuem para quedas e acidentes graves”, afirma.

O arquiteto e urbanista Carlos Eduardo Tavares, especialista em acessibilidade e consultor do Instituto Brasileiro de Inclusão Social, reforça que a arquitetura residencial precisa ser pensada para todas as idades. “É fundamental que os imóveis contem com adaptações como barras de apoio, pisos antiderrapantes, portas largas e sinalização adequada. A prevenção começa no projeto”, explica.

Já a assistente social Crystal Yuen Shuk-yan, que atua em Hong Kong visitando prédios antigos em busca de idosos em risco, destaca que o isolamento social é um fator agravante. “Muitos idosos não têm filhos por perto ou não querem incomodar. Acabam se fechando em casa, sem contato com vizinhos ou serviços comunitários. Isso cria uma situação perigosa em que um simples mal-estar pode se transformar em tragédia”, alerta.

Monitoramento remoto e redes de apoio

Com o avanço da tecnologia, soluções como sensores de movimento, câmeras internas e dispositivos de emergência com botão de pânico têm sido adotadas por famílias e instituições. No entanto, especialistas ressaltam que a tecnologia deve ser aliada, e não substituta, do contato humano.

“A presença física, mesmo que esporádica, é insubstituível. O idoso precisa se sentir visto, ouvido e cuidado. O monitoramento remoto ajuda, mas não resolve o problema da solidão”, pontua a psicóloga Silvia Nogueira, especialista em envelhecimento e saúde mental.

Além disso, iniciativas comunitárias como redes de vizinhança solidária, visitas regulares de agentes de saúde e programas de voluntariado têm mostrado eficácia na prevenção de acidentes e no fortalecimento do vínculo social.

O caso da idosa de Hong Kong é um retrato doloroso de uma realidade que se repete em diversas partes do mundo. À medida que a população envelhece, torna-se imperativo que governos, famílias e comunidades se mobilizem para garantir que os idosos possam viver com segurança, dignidade e companhia. A prevenção de acidentes domésticos não depende apenas de infraestrutura, mas de empatia, presença e responsabilidade coletiva.

Colaboração : Fiona Sun (South China Morning Post)

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