Minha cuidadora e meu “Dia do Sim”

Imagem em estilo cubismo mostra cuidadora em pé ao lado de mulher em cadeira de roda; a cuidadora está com a mão direita sobre o ombro da esquerdo da mulher; estão diante de janela pela qual se vê nuvens chuvosas

Respiro fundo. O vestido branco repousa sobre mim como um abraço. Meus músculos, frágeis pela doença crônica de infância, insistem em lembrar que há limites, que há linha intransponível.

Mas minha cuidadora me ensinou que não há limites para mim. Hoje os limites se curvam diante da minha vontade.

Passei a vida ouvindo…

  • que certas coisas não seriam possíveis
  • que o amor talvez fosse um sonho distante
  • que a escrita seria apenas um refúgio
  • que o casamento, então, era quase uma fantasia

Mas aprendi cedo que fantasias podem se tornar realidade quando há mãos que nos sustentam.

Imagem criada por Inteligência Artificial sob instruções de Serg Smigg

Cuidadores são parte da minha história. E de minha força. A minha atual não entra em casa apenas com estetoscópios e protocolos. Entra com afeto. Maria das Graças, minha cuidadora-amiga, sempre me diz:

Vitória, o cuidado é também ouvir seus desejos.

Naquele dia, ela estava ali. Não como profissional, mas como testemunha.

Meu “Sim”

Minha mãe chorava baixinho. Eu sabia que ela lembrava da infância, do diagnóstico, das noites de medo. Mas também sabia que ela enxergava, naquele instante, a vitória que carregamos juntas.

Ver você casar é assistir a um sonho que muitos diziam ser impossível, menos para Maria das Graças e para mim.

Quando ouvi o “sim” ecoar, percebi que não era apenas meu. Era o “sim” de minha mãe e da minha cuidadora, que me ajudaram a chegar aonde estou. O “sim” da família que nunca desistiu. O “sim” da vida, que insiste em florescer mesmo em terrenos áridos.

Minha Cuidadora

Imagem criada por Inteligência Artificial sob instruções de Serg Smigg

Sou escritora. Sempre acreditei que palavras são pontes. As palavras que saem da boca de minha cuidadora são pontes para meu universo de paz.

Naquele dia, não precisei escrever nada. Bastou olhar para minha cuidadora. Bastou olhar nos olhos de quem amo e atravessar a ponte que me levava ao futuro.

O casamento não foi apenas uma cerimônia. Foi um manifesto silencioso: pessoas com doenças raras podem viver experiências plenas quando há suporte de profissionais dedicados e atenciosos e suporte familiar.

Foi um manifesto e um lembrete de que o cuidado é, acima de tudo, um ato de humanidade.

Naquela noite de Fortaleza-CE, entre música, abraços e promessas, escrevi mais um capítulo da minha história. Não em páginas impressas, mas em olhares cúmplices e mãos entrelaçadas de Maria das Graças de um lado e de minha mãe do outro.

E se alguém me perguntarem o que significa viver com necessidade de atenção especial, eu responderei:

Significa aprender que fragilidade não é ausência de força. É apenas outra forma de resistir.


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A crônica de Vitória é uma entre tantas que revelam o poder do cuidado, da escuta e da presença. Se você vive ou já viveu a experiência de acompanhar alguém com necessidades especiais — seja como cuidador, familiar ou amigo — queremos ouvir você.

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