Cuidadores da Rua da Luz – Capítulo 3

Dona Hortência estava sentada na sala, assistindo à televisão. Mantinha olhar distante, típico dos momentos em que sua memória começava a falhar. De repente, pediu ao marido, Sr. Lourenço, que fosse buscar uma laranja na cozinha.

Lourenço, com sua mobilidade limitada, hesitou por um instante. Clara, sempre atenta, se aproximou com um sorriso acolhedor.

— Posso ajudar, senhor Lourenço? – E olhou para D. Hortência com carinho. – O amor de sua vida vai querer laranja das suas mãos, não é? — disse e estendeu a mão para apoiá-lo.

Sentindo-se útil e valorizado, Lourenço aceitou a ajuda. Juntos foram até a cozinha. Dona Hortência, satisfeita por ter seu pedido atendido, voltou a se concentrar na televisão, enquanto Clara percebia o clima com um sentimento profundo de humanidade e cuidado.

Naquele momento, a rotina simples se transformava em um gesto de amor compartilhado, em que cada um encontrava seu lugar e sua importância na pequena família que formavam.

Não havia ali qualquer espécie de documento comprobatório de obrigação de demonstração de presença, de carinho. Havia apenas manifestação da consciência sobre a própria importância no espaço de cada um.

Recostada no batente da porta de acesso à cozinha, Helena – advogada, filha do casal – apreciava a cena familiar. Tinha acabado de chegar de audiência jurídica. Nela, defendia direitos pecuniários de simpática senhora abandonada no asilo por três filhos. Os três detinham gordas contas bancárias… geradas a partir dos esforços da própria mãe em períodos antigos da vida.

“Tem-se dedicação e amor pelo histórico de vida, não histórico bancário”, definiu Helena.

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